Um dos maiores dramaturgos brasileiros apaixonou-se por Sonia, a principal personagem feminina de “Crime e Castigo”
Um dia, meu pai trouxe para casa o Crime e Castigo, de Dostoievski. Fui ler o livro no quarto trancado. Comecei às sete da noite, antes do jantar, e não jantei. Não parei mais. O que me feriu não foi o crime do Raskólnikov. Claro que me assombrou a morte da velha usuraria e de sua irmã. O que me doeu mais, porém, foi a figura da Sonia. A principio, não percebi tudo. O livro falava em “livrinho amarelo”. Não entendi e voltei atrás. Acabei entendendo que era prostituta. Sonia, prostituta! Comecei a sentir uma pena absurda, e tão funda, e tão doce, uma pena que nascera comigo, que existia antes de mim.
Fui um menino capaz de todas as paixões. E Sonia foi, desde o primeiro momento o meu dilacerado amor. Lendo Dostoievski eu pensava que ela se despia por dinheiro; e imaginava que ela devia ter uma nudez infeliz e crispada como a da demente. Não, como a da demente, não. Eu sonhei uma nudez de menina para Sonia. Bêbados, velhos e doentes a possuíam; e ela se entregava por pena dos irmãos e da madrasta tuberculosa.
E, como ela amava Raskólnikov, eu passei a ser assassino da usuraria. Tremi de beleza quando os vi no quarto e sem que um desejasse o outro. Era uma ternura desesperada, um querer bem sem esperança nenhuma, nenhuma. Súbito, ao lance de opera ou pior, pior – de Rádio Nacional. Raskólnikov ajoelha-se aos pés da prostituta e brada: “ Não foi diante de ti que me ajoelhei, mas diante de todo o sofrimento humano”. Chorei ao ler isso; e chorava por Sonia, pelo assassino e por mim.
Depois, através dos anos, reli muitas e muitas vezes, a mesma cena. Adulto, e já com um mínimo de lucidez critica, pude perceber o mau-gosto hediondo. Mas ai é que esta: a grande ficção nada tem a ver com o bom gosto. Acabei de ler o Crime e Castigo. Eram oito horas da manhã, ou nove, quando os deixei na Sibéria. Ou por outra: era eu que estava na Sibéria, e Sonia comigo. E era um amor sem desejo, nada lascivo, cálido como um martírio.
Nelson Rodrigues
(Trecho da Revista Livros Entreclássicos)
1 resposta Até agora ↓
Gabriel // Abril 10, 2009 às 6:43 pm |
Olá! Sou o Gabriel do Oficinão (participamos da oficina do Paulo Celestino juntos), e gostei muito do blog de vocês. Espero mais notícias de vosso trabalho, e se pudesse sugerir alguma referência sugeriria as adaptações cinematográficas de Dostoiévsky feitas por Luchino Visconti.
Prestigiem também o nosso Blog, o Blog da Fome, linkando com o vosso:
http://www.blogdafome.blogspot.com
Abraços, Sucesso e Obrigado.
Merda !